Escalada no Morro Dois Irmãos
No último domingo, já no meio da tarde, resolvi que queria escalar. Depois de ligar para algumas pessoas, que provavelmente já estavam escalando, e não conseguir falar com ninguém, resolvi ir sozinho. Diante dessa decisão eu tinha basicamente três opções: fazer boulder, escalar em solo, ou escalar usando uma técnica de auto-segurança.
Como eu queria fazer uma parede mas nada muito fácil ou que já tivesse feito antes, decidi escalar em auto-segurança uma via no Irmão Menor, no Morro Dois Irmãos, um lugar que eu frequento muito pouco. Após uma busca rápida por croquis, na famosa croquiteca do Clube Excursionista Carioca, concluí que minha melhor opção era a via Paulista (3° IV).

Croqui da via Paulista, a número 4 ©Clube Excursionista Carioca
Com o croqui impresso, e algumas lembranças de como chegar na base da pedra, parti em direção ao Parque do Penhasco Dois Irmãos. A caminhada foi tranquila e rapidamente eu estava no mirante do parque. Tinham umas 10 pessoas lá, quase ninguém se consideramos a vista do lugar combinada com um domingo de sol. Era pra ter umas 200 pessoas admirando a cidade lá de cima. Eu imagino como não devia estar o Pão de Açúcar…

Vista panorâmica do Morro Dois Irmãos ©PedroStabile.com
A foto acima foi feita com meu celular, o Nokia N95, pois sabia que o lugar tinha uma certa reputação de ser perigoso e eu não iria levar minha Nikon para lá… aliás, não levei nem a carteira! Apenas uma identidade a pedido da Lia.
Após mais alguns poucos minutos de caminhada íngreme, já na trilha, cheguei na base da via Solaris. Essa via foi a primeira que eu fiz nessa parede, há muitos anos atrás, embora a intenção fosse escalar outra via. Ou seja, fiz a via errada. Isso aconteceu praticamente todas as vezes que fui lá! Infelizmente, eu estava prestes a manter essa tradição.
O meu croqui (início do post), desenhado em mil novecentos e Getúlio Vargas, não mostra nenhuma via entre a Marizel e a Paulista. Constatei que ele estava defasado quando vi grampos inox brilhando de novos na parede entre elas. Mas, de acordo com a minha interpretação do croqui, eu estava no lugar certo: logo após uma subidinha e na base de um diedrinho/blocos de pedra. Croquis de escalada são interessantes. Quando você quer, interpreta eles de qualquer maneira:
- “Essa subida aqui (no croqui) deve ter sido essa que a gente fez agora… olha aqui, tem uma árvore! Igual ao desenho! Só pode ser aqui…”

Visual da base ©PedroStabile.com
Decidi que estava na base da via certa, e comecei os procedimentos de auto-segurança. Não quero entrar em detalhes sobre essa técnica, pois se feita errada pode ser muito perigosa, aliás, até feita da maneira “correta” pode ser perigosa. Não quero incentivar ninguém e, além disso, cada um desenvolve seu próprio método. Basicamente, a técnica permite que você escale sozinho, com a segurança da corda, mais ou menos como se estivesse com um parceiro, só que você faz a sua própria (auto) segurança.
Normalmente solo os primeiros grampos, pois não gosto da idéia da ponta da corda presa em uma árvore na base, onde qualquer maluco pode cortar. De cara percebi que a graduação estava puxada para uma via de 3° ou 4° grau, mas pensei que fosse uma “falta de psicológico”, em função do estilo da escalada. Mas não. Era a tradição de errar a via…
Lá pelas tantas, o que eu desconfiava se confirmou. “Porra! De jeito nenhum isso aqui é 4° grau!” Mas, quem tá na chuva é pra se molhar, não é? A escalada estava boa, a via sem dúvida era maneira, então continuei. Depois de 3 enfiadas, percebi que até daria tempo de fazer cume, mas que isso significaria descer no escuro. Eu tinha levado minha headlamp mas não queria abusar da minha sorte, dada a reputação e as histórias do lugar, e portanto resolvi rapelar.

O que os franceses pensam sobre rapel ©Ned
O rapel foi rápido, sem complicações. Cheguei de volta à base em uns 20 minutos. Quando estava passando a corda, ainda com o baudrier, ouvi vozes e passos. Fiquei um pouco paranóico, já pensando o pior, mas me acalmei pensando que se eu estava lá, por que não podiam ser outros escaladores, ou mesmo membros das comunidades abaixo?
A calma permaneceu até eu estabelecer contato visual com um sujeito com algo como um cano nas mãos. Continuei calmo e decidi racionalizar a situação: “Deve ser uma vara de pescar, dessas de encaixe, e o dono e seus 1, 2, 3 amigos estão indo pescar no final de tarde no mirante do leblon.” Que lindo!
Mas não, não era uma vara de pescar. Era uma arma calibre 12, que ia da cintura do cara até o chão. Ao constatar isso, incrivelmente, fiquei mais calmo ainda! Parei o que estava fazendo, pois vai que o cara acha que o gri-gri é uma arma… Quando ele estava a dois metros de mim, perto o suficiente para eu perceber o adesivo do escudo do Flamengo no cano, iniciei um diálogo:
- Boa tarde – eu disse.
- Tava escalando? – disse o cara, olhando a corda e o equipamento.
- Acabei de descer. Já ia embora… – respondi, meio que perguntando.
- Tu mora aonde? – perguntou o cara.
- Aí embaixo… – respondi, meio que olhando pro Leblon inteiro.
- … – disse ele.
- Fud… – pensei. Pensei! Não ia falar isso pro cara!
E aí o cara foi embora. E os outros 3 foram atrás. Beleza!
“Arrumei” a mochila rapidamente e percebi um segundo problema, eles tinham ido pro mesmo lado que eu ia. E agora? “Espero eles voltarem, vou devagar para não encontrar com eles, subo em direção à Rocinha…?” pensei. Estava ficando de noite, e eu não sabia se eles estavam procurando um amigo ou caçando um inimigo, portanto decidi ir logo, pois vai que daqui a pouco passa o amigo ou o inimigo, e qualquer um dos dois não vai com a minha cara.

- A 12 em ação! © O tarado do Google
Logo que comecei a trilha de volta para a “segurança” da cidade, encontrei a calibre 12 e seu dono parados, tomando conta dos companheiros que estavam trilha abaixo e que, na verdade, já estavam subindo de volta. Iniciei um segundo diálogo:
- Opa… – eu disse, para chamar a atenção sem tomar um tiro.
- … – disse o cara, balançando a cabeça como quem diz “qual foi”.
- Tá tranquilo descer? – perguntei.
- Vai lá. – respondeu, sem me convencer.
- Aí… – continuou – … você não viu ninguém aqui em cima não hein.
- Claro que não! – respondi com entusiasmo.
E desci torcendo para não tomar um tiro pelas costas.
Mas devo dizer, o cara era profissional. Não elevou a voz nem uma vez, nem comigo nem com os amigos. Não apontou a arma para mim em nenhum momento. Só faltou me entregar um cartão de visitas, já pensou: “Escale com segurança, contrate meus serviços”. “Vai lá, escala tranquilo, tô na seg!” e aponta a 12 de um lado para o outro.
Depois que deu tudo certo, fiquei pensando que foi até bom acontecer isso, pra eu não esquecer que essa cidade é uma selva. Não abusar da sorte. No início da tarde cheguei a pensar em fazer cume, ver o pôr do sol lá de cima, e rapelar a noite. Agora sei que para fazer isso, a boa é passar a noite lá em cima. Ou não fazer.
Mas isso não significa que eu não vá voltar lá. Eu vou. Armado até os dentes! Armado de corda, costuras, friends, nuts, hexentrics… e com qualquer um que se interesse em escalar vias maravilhosas, em um dos lugares mais maneiros do Rio, com um dos visuais mais bonitos da cidade.
E que não se incomode de fazer a via errada…